Hoje escrevo-te a ti, não por impulso, mas por lucidez.

À escolha que foi feita consciente, pesada e assumida.

À decisão de proteger uma imagem, uma inocência, mesmo sabendo que isso custaria felicidade a quem escolheu ficar.


Não escrevo para absolver ninguém.

Escrevo para que vejas.

Para que entendas o lugar de quem observa, em silêncio, as exigências colocadas no outro.


A lealdade não se testa nos momentos felizes nem nas memórias partilhadas. Testa-se quando surgem portas abertas. Quando a vida sugere que há mais lá fora. Quando partir é possível e ficar continua a ser uma escolha.


Aqui não há dúvida e não se trata de controlo. É lealdade.


Mesmo com opção, houve permanência.

Com o coração apertado.

Com a consciência de que a intensidade procurada existe fora, mas ainda assim houve escolha. A escolha de proteger o brilho de quem cresce. A escolha de dar aquilo que nunca se recebeu.


Não há censura.

E mesmo que o amor demonstrado pareça pouco, é tudo o que se sabe oferecer. Foi construído na escassez, não na abundância. Demorei a compreender isso. Espero que não compreendas tarde demais.


O amor nem sempre se anuncia.

Às vezes cala.

Nem sempre se mostra em gestos evidentes mas revela-se na consistência, no cansaço, nos atos silenciosos que sustentam um lar.


A procura por opção nasce da incompreensão. Das cobranças que não veem o que está a ser construído. De quem trabalha hoje a pensar num futuro comum e, ao regressar, só procura abrigo.


Quem vive focado em garantir o amanhã não quer conflito no presente. Quer paz. Quer descanso. Quer pertença.


A caminhada é conjunta.

Não fragmentes o “nós”.

Não individualizes conquistas.

Não exijas apenas compreende e acolhe.


Há quem tenha crescido com raízes firmes e há quem tenha aprendido a sobreviver sem chão.